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Homilia na ocasião do encerramento da celebração dos 400 anos de fundação das Irmãs da Visitandinas de Santa Maria
13 de dezembro de 2010 - Pe. Aldino José Kiesel, OSFS

Queridas Irmãs da Visitação de Santa Maria,
Estimadas irmãs e irmãos em Cristo,

Celebramos hoje, 369 anos após a morte de Santa Joana Francisca de Chantal, o final do ano jubilar, o qual foi marcado por muitas celebrações para recordar os 400 anos de existência da Ordem da Visitação de Santa Maria, e para louvar a Deus pela sua existência. Pessoalmente tive a satisfação de também participar da celebração solene em Annecy, na basílica onde repousam os restos mortais de S. Francisco de Sales e de Santa Joana de Chantal. Essa celebração ocorreu no último dia 6 de junho, exatamente no dia dos 400 anos de fundação, a apenas alguns metros da Casa da Galeria, onde a Ordem teve seus inícios.

Francisco de Sales inspirou-se na experiência de Santa Francisca de Roma (1384-1440). Ele conheceu a vida desta santa ao entrar em contato com a Congregação religiosa por ela fundada, a qual ele conheceu em sua visita a Roma, em 1598. Após 40 anos de vida matrimonial, ela ficara viúva, e fundou uma Congregação religiosa em Roma para servir aos pobres e doentes. Essas Irmãs uniam a vida contemplativa, vivida em vida comunitária clássica de mosteiro, segundo as regras de São Bento, e o serviço de caridade aos necessitados na cidade, que eram tantos, em especial por causa da peste de 1417-1418. Essa experiência marcou o então Padre Francisco de Sales, e provocou nele o desejo de fundar uma Congregação semelhante.

Em março de 1604 ocorreu o histórico encontro do então bispo Francisco de Sales e a viúva Joana Francisca de Chantal em Dijon, onde ele foi para fazer a pregação durante uma semana na quaresma. Pouco antes, durante a preparação, Francisco havia tido uma visão, na qual viu uma senhora nobre, vestida de preto, andando nas ruas de Annecy, acompanhada de duas outras senhoras. Era a visão do início da Visitação.

Como o bispo Francisco e Joana moravam longe um do outro, estabeleceu-se entre eles, desde então, um constante contato através de correspondências. O bispo tornou-se o diretor espiritual da viúva Joana de Chantal. Uma vez ao ano ela viajava a Annecy para uma semana de retiro com Francisco de Sales. Em junho de 1607 o bispo revelou a ela seu projeto, o qual ele via agora claramente: fundar uma nova Congregação de Irmãs em Annecy. “Diante desta proposta – revela Joana Francisca de Chantal – eu senti de repente uma forte adesão interior, uma suave satisfação e claridade interior”.

A maior obstáculo para iniciar este projeto eram seus quatro filhos. O que aconteceria com eles se a mãe fosse ao convento?

O primeiro passo foi a decisão de que a filha mais velha, Maria Aimée, iria casar-se com Bernardo de Sales, o irmão do bispo Francisco de Sales. Isso aconteceu em outubro de 1609. O filho Celso Benigno iria ficar sob a guarda de seu avô, o pai de Joana, e as duas filhas, Francisca e Carlota, iriam com sua mãe para Annecy. Depois se iria decidir sobre o futuro delas.

No início de 1610 duas mortes aceleraram os planos para começar o projeto. Em janeiro daquele ano faleceu Carlota, a filha mais nova de Joana, com apenas 10 anos de idade. Um mês mais tarde falece a mãe de S. Francisco de Sales. Joana apressou-se em ir a Annecy para estar ao lado de sua filha mais velha, Maria Aimée, casada com o irmão do bispo Francisco, e que agora sofria duramente com a morte de sua sogra. A partida de casa foi dramática para a viúva e mãe Joana. Seu filho jogou-se no chão, à frente de sua mãe, para evitar que ela saísse de casa. Foi para ele muito difícil ter que renunciar sua mãe completamente. A mãe teve que passar por cima de seu filho para alcançar a carruagem, o que causou a ela lutas interiores de consciência por algumas semanas.

Finalmente, no dia 6 de junho de 1610, uma semana depois de Pentecostes, o sonho torna-se realidade. Na assim chamada Casa da Galeria, em Annecy, é fundada a nova Congregação. Joana Francisca de Chantal, Carlota de Brechard e Ana Jaqueline Favre recebem do bispo a bênção, e também a primeira versão das Regras da Ordem, com as palavras: “Sigam este Caminho, minhas queridas Filhas, e que o sigam todas aquelas que Ele escolheu para seguir seus passos”.

Nos dias seguintes Joana de Chantal e as demais iniciaram a rezar a Oração das Horas e a viver em comunidade. Regularmente o bispo vinha para encontrar-se com a comunidade e orientar as Irmãs. Em geral os encontros aconteciam no pátio interno da Casa da Galeria, eram muito desejados pela comunidade, e as orientações do bispo ficaram conhecidas como “Palestras Íntimas”. Num ocasião ele assim resumiu seu projeto: “A Congregação tem duas obrigações principais: a primeira é a contemplação e a oração, a serem realizadas em Casa; e a segunda, o serviço aos pobres e doentes, em especial às mulheres; por isso faz sentido que Nossa Senhora da Visitação seja escolhida como a patrona”. No dia 1º de janeiro de 1612, pela primeira vez, as Irmãs da Visitação saíram da Casa da Galeria para ir à cidade e visitar e consolar os pobres e os doentes.

Nos inícios de 1612 Joana de Chantal caiu gravemente enferma, e pensava-se que sua morte era iminente. Francisco de Sales abandona tudo nas mãos de Deus: “Seja feita a tua vontade”. Mas ela recuperou-se e isso foi um grande alívio para o bispo.

Não demorou para chegarem outras candidatas, e em pouco tempo a comunidade cresceu rapidamente. Já em outubro de 1612 a Comunidade teve que mudar-se para um mosteiro novo e maior. A Casa da Galeria já tornara-se muito pequena.

Três anos depois, em 1615, estava previsto iniciar um mosteiro em Lyon, em outra diocese. Isso iria requerer a aprovação do arcebispo local, D. Denis Simon de Marquemont. Ele não estava nem um pouco satisfeito com as Regras da Visitação. Ele via um risco para a vida contemplativa o fato de as Regras permitirem que as Irmãs visitassem os pobres e doentes. Ele exigiu mudanças, de modo que as Regras permitissem estritamente a vida de clausura. Sem essas alterações, ele não permitiria que houvesse um mosteiro em sua arquidiocese, e nem permitiria que a nova Congregação recebesse a aprovação do Papa.

Francisco de Sales viu também nessa resistência do arcebispo a vontade de Deus, e acolheu as mudanças requeridas. Uma vida mais restrita de clausura foi inserida nas Regras, e como base para a revisão das mesmas Francisco de Sales utilizou a clássica regra monástica de Santo Agostinho.

Francisco de Sales no entanto manteve-se firme am alguns pontos essenciais. A Visitação continuaria acolhendo senhoras com alguma deficiência física, as quais eram naquele tempo rejeitadas por outras comunidades religiosas. Além disso, o mosteiro poderia continuar a acolher senhoras que desejam passar no mosteiro durante um determinado tempo, quer seja para encontrar um momento de paz, quer para receber alimento para sua vida espiritual. Francisco de Sales e Joana de Chantal poderiam assim ser considerados os inspiradores da chamada “vida monástica temporária”. Francisco pensava que, já que a Igreja não permitia mais que as Irmãs da Visitação saíssem do convento para visitar os necessitados, que elas deveriam, bem por isso, continuar abrindo suas portas para que pudessem entrar as pessoas que buscam ajuda. Em todo caso, a possibilidade do encontro entre as Irmãs e os necessitados estaria garantida. Se Maria não pode visitar Isabel, ao menos Isabel pode visitar Maria.

Com essas mudanças nas Regras, a Ordem da Visitação de Santa Maria foi reconhecida pelo Papa Paulo V, em 23 de abril de 1618. De ora em diante nada mais impediria o surgimento de novos mosteiros em qualquer parte do mundo. E isso não demorou a acontecer. No momento da morte de S. Francisco de Sales, em 28 de dezembro de 1622, já havia 13 mosteiros. Dezenove anos mais tarde, quando faleceu Santa Joana de Chantal, em 13 de dezembro de 1641, já havia nada menos do que 87 mosteiros, em toda França e nos países vizinhos. Surgiam, em média, praticamente quatro novos mosteiros a cada ano.

Muitas vezes ouvimos falar que S. Francisco de Sales foi precursor do Concílio Vaticano II, especialmente no que se refere à valorização da vida dos leigos na Igreja. Hoje creio que podemos dar um passo adiante. Ao possibilitar, naquele tempo, o que nós chamamos acima a “vida monástica temporária”, ele estava oferecendo algo que em nossos dias está se tornando uma serviço que está atraindo sempre mais pessoas. Somente como exemplo, eu gostaria de trazer presente o que está acontecendo em nossos dias em diversos lugares na Alemanha. É sempre mais comum ver-se mosteiros que abrem suas portas para pessoas que querem, muitas vezes, simplesmente experimentar a paz do silêncio, ou que desejam passar um dia ou alguns dias em oração, pessoal ou orientada, ou mesmo fazer um retiro espiritual. O que se observa é que, enquanto que em muitas paróquias os templos estão se esvaziando sempre mais, casas de Congregações Religiosas e mosteiros estão sendo buscados e frequentadas pelo povo. Assistimos hoje, por parte de muitos cristãos, uma atitude de resistência diante do poder, da hierarquia, da estrutura da Igreja em geral, mas, não resistência diante da dimensão espiritual. É claro que há aqueles que jogaram fora a água suja e também a criança. Mas há muita busca para salvar a criança, a vida humana, protegê-la, alimentá-la de um alimento que dura para sempre. Há, sim, na sociedade de hoje, muita abertura para a dimensão espiritual da pessoa humana. E é certamente aí que nós, membros da grande família salesiana, temos muito a oferecer. Somos filhos e filhas de um grande pai espiritual, S. Francisco de Sales, que marcou a Igreja no seu tempo, e que oferece-nos um tesouro, o qual não temos direito de guardar somente para nós mesmos. É um tesouro que pertence à Igreja, e é nossa missão hoje levá-lo aos corações famintos e sedentos.

A vida contemplativa é hoje um oásis num mundo deserto, uma certeza de que a água pura e cristalina que buscamos existe e pode ser encontrada. Na atual sociedade urbanizada, marcada pelas facilidades de comunicação que a tecnologia atual possibilita, há muitos que estão bastante conectados, mas experimentam a solidão. A conexão e a constante intercomunicação entre as pessoas não as faz necessariamente sentir-se em comunhão. A comunicação na maior parte das vezes é marcada pelo seu caráter empresarial, comercial, profissional. De outro lado, a dimensão pessoal, interior da pessoa humana, é muitas vezes isolada e abandonada. Há uma sede de comunicação a nível mais profundo, de pessoa a pessoa, de partilha de vida, de busca do sentido mais profundo da existência. Há necessidade de uma comunicação coração a coração. E, como vocês sabem, é justamente nisso que São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal nos ajudam. Há uma sede de busca de uma água mais pura, mais cristalina, que somente Deus nos pode oferecer.

A existência da vida contemplativa tem uma força protética no mundo de hoje. O vosso silêncio, queridas Irmãs contemplativas, fala alto ao coração de muitas pessoas. A Igreja precisa da vossa existência e do vosso testemunho. O mundo precisa deste oásis que vocês representam e que vocês são.

Que nosso Bom e sempre Amável Deus as abençoe, as mantenha fiéis em Seu amor eterno, e lhes conceda a graça de vocações para continuar vossa missão na Igreja e no mundo.
Deus seja bendito!

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