A missão que começou em Dom Pedrito (RS)
Em 2026, os Oblatos de São Francisco de Sales celebram 120 anos do retorno ao Brasil, recordando com gratidão o início de sua missão no Rio Grande do Sul, especialmente na cidade de Dom Pedrito, que se tornou o primeiro grande centro da presença oblata em terras brasileiras.
O convite para a missão
No início do século XX, o Rio Grande do Sul possuía apenas uma diocese, com sede em Porto Alegre, sob a responsabilidade de Dom Cláudio Ponce de Leon. O clero era escasso diante da grande extensão territorial e das necessidades pastorais da região.
Sabendo que os Oblatos haviam deixado o Equador e estavam estabelecidos no Uruguai, Dom Cláudio solicitou missionários ao Padre Luís Brisson, fundador da Congregação dos Oblatos de São Francisco de Sales.
A autorização foi concedida em 17 de março de 1906, dando início a uma nova etapa missionária. O Pe. David de Gislain, que se encontrava em Montevidéu, foi encarregado de entrar em contato com o bispo gaúcho e avaliar as possibilidades da missão.
Após visitar diversas localidades, Pe. David chegou a Porto Alegre, onde foi recebido por Dom Cláudio. De volta ao Uruguai, enviou os primeiros missionários para iniciar a presença oblata no Brasil.
Os primeiros missionários em Dom Pedrito
Os primeiros religiosos enviados foram:
- Pe. Pedro Gallon, que assumiu como pároco
- Pe. Alberto Blanc, como vigário paroquial
Posteriormente juntaram-se à missão outros Oblatos: Pe. Ludovico Ceyte, Pe. Amado Saunier, Pe. Lourenço de Hond, Pe. João Lardon e Pe. Cláudio Maria Braconnay.
Todos enfrentaram com grande dedicação os desafios de evangelizar uma região extensa e com pouca assistência religiosa.
Uma realidade desafiadora
Quando os Oblatos chegaram a Dom Pedrito, a situação era bastante precária. A igreja paroquial possuía apenas as paredes e o telhado; não havia bancos, altar, confessionário ou casa paroquial. Tampouco existiam escolas ou outras obras pastorais.
A cidade contava com cerca de 10 mil habitantes, metade na área urbana e metade na campanha. A região possuía correio, telégrafo e telefone, e uma ferrovia estava em construção. No entanto, não havia estradas adequadas. O deslocamento era feito principalmente a cavalo, atravessando coxilhas e vales.
A viagem de Montevidéu até Dom Pedrito levava cerca de três dias:
- um dia de trem até Rivera, na fronteira;
- dois dias de viagem a cavalo ou em carroças até chegar à cidade.
Além das dificuldades geográficas, os missionários encontraram uma fé pouco estruturada, marcada por práticas religiosas esporádicas e muitas vezes sem acompanhamento pastoral.
Missões e evangelização
Para alcançar as comunidades espalhadas pelo município, os Oblatos organizaram missões itinerantes, visitando fazendas e povoados distantes. Muitas vezes os missionários passavam dias viajando a cavalo, enfrentando chuva, sol intenso e rios sem pontes.
Mesmo assim, perseveraram na missão de anunciar o Evangelho, celebrar os sacramentos e formar comunidades cristãs.
Os frutos começaram a aparecer ao longo dos anos. Em 1928, por exemplo, a paróquia registrava:
- 747 batizados
- 11.455 comunhões
- 110 primeiras comunhões
- 19 catequistas
- 720 membros do Apostolado da Oração
Educação e obras sociais
Desde o início, os Oblatos demonstraram grande preocupação com a formação das crianças e jovens. Para isso, trouxeram para Dom Pedrito as Irmãs do Horto, responsáveis por dirigir uma escola.
Posteriormente também surgiram importantes obras educacionais e sociais, como:
- Colégio Nossa Senhora do Patrocínio
- Ginásio Nossa Senhora do Patrocínio
- Santa Casa de Caridade e Hospital São Luiz
Essas iniciativas contribuíram significativamente para o desenvolvimento espiritual e social da cidade.
Uma missão internacional
A missão em Dom Pedrito começou com Oblatos franceses, mas ao longo das décadas recebeu também religiosos de outras nacionalidades.
- Franceses – pioneiros da missão
- Alemães – chegaram a partir de 1930
- Americanos – vieram posteriormente, fortalecendo o trabalho pastoral
Por muitos anos, Dom Pedrito tornou-se a “casa-mãe” dos Oblatos no Brasil, onde os missionários estrangeiros aprendiam a língua portuguesa e se preparavam para a evangelização.
Uma presença que marcou gerações
Entre os missionários que mais se destacaram está Pe. Antônio Paul, pároco durante 34 anos (1932–1966). Durante seu ministério foram construídas diversas obras importantes e organizadas várias comunidades no interior do município.
Após 62 anos de intensa atividade missionária, em 1968 os Oblatos deixaram a paróquia de Dom Pedrito, entregando-a à Diocese.
Um legado que permanece
A história da chegada dos Oblatos ao Brasil é marcada por sacrifício, coragem missionária e profunda dedicação pastoral. Em meio a longas viagens, dificuldades materiais e desafios culturais, esses religiosos plantaram as sementes da fé em muitas comunidades do sul do país.
Ao celebrar 120 anos do retorno dos Oblatos ao Brasil, recorda-se com gratidão o testemunho desses missionários que, inspirados pelo carisma de São Francisco de Sales, dedicaram suas vidas ao serviço do Evangelho e à formação de comunidades vivas de fé.











